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Com melhora na percepção de risco, empresas aproveitam para reduzir dívidas e investir

O risco-país do Brasil caiu na terça-feira ao menor nível desde maio de 2013 , um mês antes do início da onda de protestos que marcou o início da crise econômica e quando o país ainda tinha o chamado grau de investimento (espécie de selo de bom pagador).

Foi a 15ª queda consecutiva do indicador, a maior sequência já registrada, embalada pela aprovação da reforma da Previdência e pelo cenário de queda de juros.

Com a melhora na percepção de risco, as empresas estão aproveitando para levantar recursos a custo menor, reduzir o endividamento e investir.

O indicador é medido pelo c redit default swap (CDS), contrato que equivale a um seguro contra eventual calote do país. Ontem, o papel encerrou aos 117 pontos, menor patamar desde 13 de maio. Quanto mais baixo o CDS de um país, mais segurança os investidores veem nele.

Nesse cenário, as empresas nunca captaram tantos recursos junto a investidores no mercado doméstico quanto agora. Até setembro, as emissões já somaram R$ 268,9 bilhões, 42% mais que no mesmo período do ano passado, segundo a Anbima, associação que reúne entidades financeiras. Quase metade desses recursos foi captada por debêntures (títulos de dívida).

De acordo com a Anbima, 44,3% dos recursos captados por meio de debêntures serão destinados a refinanciamento ou recompra de títulos antigos. Mas 24,7% serão usados para investimento ou compra de participação societária. Em agosto, por exemplo, o Pão de Açúcar anunciou emissão de R$ 8 bilhões para financiar uma aquisição na Colômbia.

Juros baixos ajudam

Se a percepção de risco sobre o país melhora, a agência de classificação de risco Fitch vê “inflexão positiva” no cenário para as empresas brasileiras. Segundo Mauro Storino, diretor sênior da Fitch, apesar da lentidão que persiste na economia, o país não está mais em recessão, o que ajuda a incrementar a receita das empresas.

Além disso, a redução da taxa básica de juros (Selic) barateou o custo das dívidas das companhias. Storino lembra que já há empresas captando recursos com juros de cerca de 6%. No auge da crise, com a Selic em 14,25%, houve empresas captando a taxas próximas de 20%.

Como a capacidade ociosa das companhias ainda está elevada, há menor necessidade de investimentos, o que permite a redução do endividamento. Em 2015, a dívida líquida das empresas brasileiras equivalia sua 3,1 vezes a geração de caixa anual. Hoje, a relação está em 2,5 vezes, e a expectativa de Storino é que o patamar recue a 2,3 vezes no ano que vem — nível já considerado saudável por analistas.

Na Moody’s, outra agência de risco, este ano foram elevadas as notas de 11 empresas, contra seis rebaixamentos. Em 2015, foram 87 rebaixamentos para 36 elevações.

— Nunca vi emissões de dívidas com prazos tão longos e custos tão baratos. As companhias conseguem empurrar lá para frente os vencimentos e têm menor gasto com o custo da dívida. Isso tem muito a ver com a queda da Selic — diz Storino.

A siderúrgica CSN, por exemplo, teve sua nota elevada duas vezes pela agência Standard & Poor’s (S&P). Agora, está em “B”, contra “CCC” em 2017. A melhora se deu graças ao refinanciamento da dívida da companhia. Na semana passada, o presidente da CSN, Benjamin Steinbruch, indicou que a empresa está pronta para emitir nos mercados interno e externo. Para isso, a siderúrgica aposta em novas melhoras de sua nota para reduzir custo de captação.

— Uma série de empresas está emitindo dívida para trocar juros. Com a melhora da percepção sobre a dívida soberana, há também melhora na visão sobre as empresas. E as emissões recorde são reflexo desse risco menor e dos juros baixos — observa Tomás Goulart, da Novus Capital.

Na crise, o contrato de CDS com prazo de cinco anos referente ao Brasil atingiu o pico de 533 pontos, em setembro de 2015, duas semanas após a S&P rebaixar e tirar o grau de investimento do país.

Expectativa para o Brasil

Maiko Carvalho, da ACE Capital, lembra que houve um movimento global de redução de risco nos últimos anos, sobretudo entre emergentes, proporcionado pelos juros baixos no mundo e outras medidas de estímulo monetário. Mas o Brasil conseguiu melhorar sua posição frente aos pares.

Segundo levantamento do GLOBO, naquela ocasião, o Brasil tinha o 7º maior risco entre 80 países. Estava atrás apenas de Grécia, Ucrânia, Iraque, Angola, Nigéria e Zâmbia. Atualmente, o Brasil está na 25ª posição. O ranking hoje é liderado pela Argentina (4.412 pontos).

— Sentimos um otimismo com o Brasil, tanto na comparação com emergentes como frente a outros países da América Latina, como Argentina e Chile. A Previdência passou, o governo e o Congresso planejam novas reformas, a inflação está sob controle, e os juros, caindo. Por isso, gestores de portfólio de investimento do restante do mundo estão de olho no Brasil — diz Italo Lombardi, estrategista para América Latina do banco Crédit Agricole em Nova York.

Segundo especialistas, o CDS tende a antecipar movimentos das agências de risco. Hoje, o risco-país do Brasil está quase empatado com o da Itália, que tem grau de investimento. Mas há cautela.

— O grau de investimento não voltará do dia para a noite. Temos de mostrar que a trajetória da dívida vai parar de subir — afirma Carvalho.